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27/05/2009
"Sou músico, não vendedor de disco"

Por Valdir Zwetsch, para a revista "Pop", em 1975
Foto: Bob Wolfenson

Hermeto Pascoal é um dos poucos músicos brasileiros realmente respeitados no exterior. Há uns dois meses, convidado a participar de um LP da também brasileira Flora Purin, nos Estados Unidos, ele foi, tocou, fez arranjos e acabou incluindo músicas suas nos discos de outros músicos de vanguarda que estavam por lá. E quando quiseram segurá-lo para gravar um LP seu, Hermeto disse que vinha ao Brasil e voltava logo. Mentira: o genial Hermeto não quer gravar mais. E aqui explica por quê.

Pop - Como é que está o movimento da música brasileira nos Estados Unidos, com você, Airto, Flora Purim, Gismonti e outros?
Hermeto - O trabalho lá... Eu acho que a música brasileira está cada vez se unindo mais. Não só a brasileira, mas a de outros países que também tem muitos ritmos. Você não vê mais aquele negócio de ser só um tipo de música. Entende? A música está se juntando. Há influências espanholas, brasileiras, japonesas... E isto está caminhando para um negócio universal. A música está cada vez mais universal. Por exemplo, agora você vê um garoto de 18, 20 anos, tocando com um cara de 50, 60 anos de idade. E estão se entendendo. Antigamente não era assim. Então, é também por isso que eu acho que a música está cada vez mais se unindo mais.

Pop - E há também um respeito recíproco entre os caras de 18 e 60 anos...
Hermeto - Há um respeito de ambas as partes. Antigamente, o garoto achava que o cara de 60 anos estava por fora, e vice-versa. Agora não, porque o garoto já estuda muito. E eu estou falando isso não em termos só de Estados Unidos, não – em termos de Brasil também. Você pode ver que tem muitos garotos por aí que estão tocando muito bem. Acontece que eles estudaram.

Pop - É difícil conquistar respeito e prestígio nos Estados Unidos?
Hermeto - Não. Lá é até mais fácil do que aqui.

Pop - Por quê? Qual é a dificuldade aqui?
Hermeto - Olha, eu já me conformei. Não quero mais do que o que está acontecendo. Então não ligo. Pra mim, ter um show para daqui a um mês já está tudo bem. Se não tiver, estou tocando, estou ensaiando, estou escrevendo. Então, prefiro ficar aqui mesmo e fazer uma ponte aérea para os Estados Unidos. Quando tiver alguma coisa para fazer lá, vou lá, gravo e venho embora.

Pop - Mas você não desenvolve um trabalho contínuo nem lá nem aqui. Não grava com regularidade o seu trabalho.
Hermeto - Olha, era para eu fazer um disco antes de voltar pra cá. Mas como eu já estou com muita raiva, estou chateado com esse negócio de gravação, disco... Decidi não gravar mais.

Pop - Aqui ou lá?
Hermeto - Nem aqui nem lá. O negócio do disco é o seguinte: aqui no Brasil, a gravadora já pensa logo em vender disco. E eu não penso em vender disco. Eu digo pra eles que não sou vendedor, eu não sou o cara que vai oferecer o disco pra vender. Quem tem obrigação de vender são os caras que trabalham na gravadora. Eu tenho que gravar o que eu sei, o que eu sinto. Então eles dizem para mim: "Olha, nós adoramos o seu trabalho, seu trabalho é muito bom, mas não podemos gastar muito. Você quer orquestra, muitos músicos..." Então, o problema de eu não gravar aqui é que nós não entramos em acordo: eu não entro na dos caras e os caras não entram na minha. Então fica um problema. Eles querem que antes de um disco eu dê toda a relação do que eu vou usar, para que eles façam um levantamento de preço. Mas eu não gosto disso, porque não sei o que vai acontecer. Quero começar o disco e ir fazendo o que acho que devo fazer. Por exemplo: às vezes tem lugares em que eu quero colocar 20 músicos; em outros quero botar um só, ou nenhum, mas eles ficam com medo. E eu acho também que outro problema é que eles pensam que a música não é comercial. Então, eu até já estou mudando. Mesma antes de sair daqui, eu já estava com essa ideia. Analisei muito bem a minha música e acho que ela é uma espécie de peça de teatro, um negócio mais para teatro... Não dependo muito nem vou depender de gravação.

Pop - E nos Estados Unidos é a mesma coisa?
Hermeto - Bem, agora que fui participar do novo LP da Flora, não gostei muito de Los Angeles. Achei muito parado, muito parecido com o Brasil, na maneira de agir dos caras. O movimento musical está parado, acomodado, tem muita gente a fim de ficar rica...

Pop - Na verdade, é o mesmo processo industrial, não é?
Hermeto - É, mas acontece que lá os caras querem que eu grave. Se quisesse, teria gravado antes de voltar, mas eu já estava cheio, chateado mesmo. Queria vir embora mesmo e não quis ficar para gravar. E era na mesma gravadora em que a Flora gravou. Isso é bom, porque eu não quero gravar em gravadora especializada em jazz, de jeito nenhum. A música é uma só, e não quero nunca que digam que eu sou um músico de jazz, que eu sou um músico de não sei o que, disso ou daquilo. Quero apenas continuar, quero ser um músico, um cara universal. O cara que toca todo tipo de música e faz música, só. No disco da Flora, 90% é rock, eu larguei o pau, peguei a flautinha e não quis nem saber. Toquei rock, toquei tudo lá, o que apareceu eu toquei. Eu não tenho preconceito sobre música. Pra mim, se a música for boa, está tudo bem.

Pop - Já que não há possibilidade de transar com as gravadoras aqui, você não teria interesse em produzir seu próprio disco?
Hermeto - Interesse eu tenho, mas teria que ter dinheiro para gastar, pagar estúdio, músicos. E eu também não tenho grana. Mas se produzisse um disco meu, aí eles iam ver como é que vende. Porque o disco que eu gravei na Phonogran vendeu, vendeu mais de 60 mil cópias. E eu acho que o público que eu tenho é quase todo universitário, e eles compram disco. Eles não compram agora porque não tem nada de novo. E ficam perguntando pra mim mesmo quando é que vai sair outro disco meu.

Pop - Um cara como o Egberto Gismonti – agora ele fez um disco, com música também de vanguarda, e até que está vendendo bem. Ele também vai para os Estados Unidos. Você acha que ele tem chances lá?
Hermeto - Tem, tem porque ele é um arranjador. Mas eu falei pra ele: tem que ficar lá. Porque, como já disse, o americano quer as coisas para ele. Eu dei um drible neles. No segundo disco, vim pra ficar 15 dias, eles me deram passagem de ida e volta, mas fiquei quase três anos. A passagem já era. Quando fui agora, um dos caras perguntou: "E desta vez?" Respondi: "Desta vez eu vim mesmo, vou ficar no Brasil no máximo um mês, então volto pra morar aqui". Mentira, vou nada! Não vou morar lá, nunca.

Pop - Por quê? Só por questões, digamos, sentimentais?
Hermeto - Não. Porque, no momento, a coisa mais importante do mundo, o centro da música, está aqui no Brasil. Coisas que a gente já fazia aqui há mais de dez anos, os caras estão fazendo lá agora. A música lá está ruim, principalmente em Los Angeles. E os caras estão vindo pra cá, tem muita gente vindo, porque aqui já é há muito tempo o centro. No futuro vai vir todo mundo pra cá, isso aqui vai ficar uma maravilha. Antes era só negócio de escola de samba – que eu respeito, é claro – mas agora a coisa tá começando a se unir.

Pop - Os próprios músicos de rock que tem vindo ao Brasil, todos eles muito respeitados, chegam aqui e desbundam, descobrem novos caminhos para a música deles, que parece que já está em crise.
Hermeto - Está tudo em crise lá. A música lá não está com nada. Sabe quando o cara está pendurado num cabo de aço, no meio do mar, e aí o cabo quebra no meio? O cara fica pendurado num lado só, pedindo pelo amor de Deus pra alguém tirar ele dali. A música lá está nessa base. Nós aqui não, nós temos muitos caminhos. Tem que acabar é o preconceito do músico que faz um determinado tipo de música, e de achar que o outro não é legal. Tem que misturar, e todo mundo estudar e aprender a tocar bem.

Pop - Você tem acompanhado o trabalho da nova geração aqui? O pessoal do rock...
Hermeto - Eu adoro rock. Mas o rock aqui no Brasil não tá com nada. Ninguém toca legal. Porque só vendo os caras que tocam lá no exterior para acreditar... Não é que a moçada tenha que imitar. Eu falo é do nível do instrumentista. Aqui, só podem tocar bem rock os músicos que desenvolvem mais os instrumentos. Os outros precisam ver o pessoal de fora, sacar o nível dos instrumentistas. Porque um bom músico de rock lá não toca só rock – ele toca tudo. Mas tem que ter cuidado pra não imitar. Porque tem músico aí que ouve um disco e sai tocando igualzinho. Isso não tem valor.

Pop - Só um exemplo. Tem muita gente aí que tenta imitar o grupo Yes. Daí, o tecladista do Yes veio ao Brasil e acabou fazendo o contrário: gravou uma fita com os nossos ritmos e está trabalhando em cima dela, colocando teclados em cima para o seu disco como solista. O que acha disso?
Hermeto - É o tal negócio: eu duvido que algum músico brasileiro vá lá e diga: "Eu quero uns bateristas ingleses só para gravar um negócio aqui, que eu vou levar pra não sei onde..." – e fique tudo bem. Mas eles fazem. Eu acho que o próprio governo devia cuidar disso, porque é quase a mesma coisa que um cara tirar peixe das águas brasileiras. Não é proibido? Então porque que na música um cara pode chegar, pegar e carregar? E o pior é que depois quem faz sucesso é ele, o disco é dele, e nós ficamos num plano secundário. Por isso é que, quando gravo lá, eu não vou logo abrindo o jogo, não. Eu ando conforme o barco, sem me deixar enrolar...

Notas da RU:

1) Na foto publicada nesta página, tirada na mesma sessão que ilustrou a reportagem da revista Pop, é o autor da entrevista quem aparece de ouvido colado no sopro de Hermeto. O fotógrafo é um certo Bob Wolfenson.

2) Em memorável show na Virada Cultural de 2009, no Teatro Municipal, Egberto Gismonti lembrou de uma experiência com Hermeto, mais ou menos nessa época da entrevista acima. Na ocasião, os dois chegaram em determinada cidade norte-americana para gravar e / ou arranjar os discos de Airto Moreira e Flora Purim. Acontece que Egberto e Hermeto chegaram antes dos próprios autores dos futuros álbuns e passaram alguns dias esperando, dividindo um mesmo quarto de hotel. Para combater o tédio, Hermeto propôs uma gincana: eles competiriam para ver quem conseguiria compor a PIOR música. Segundo Egberto, a brincadeira persiste até hoje. (RZ)

 










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