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Por Valdir Zwetsch
“O meu pobre coração Está ficando um tanto quanto aflito Pois deve estar pintando o tempo Em que você começa a gravar O seu próximo disco Eu queria tanto ouvi-lo cantar Eu não preciso de sucesso Eu só queria ouvi-lo cantar Meu pobre blues... e nada mais... É tão simples...”
(Sergio Sampaio – “Meu pobre blues”)
De fusca, desço a avenida Angélica num dia qualquer de 1974. O radinho está na Rádio Excelsior. Começa a tocar uma música pungente, delicada – mas com uma letra direta, sem rodeios: o cara que canta reclama que não consegue mostrar seu pobre blues ao ídolo, para que ele escute e, quem sabe, grave no próximo disco. As referências são explícitas: um roquezinho antigo, um calhambeque, alguns detalhes... Tá na cara que a mensagem é pro Roberto Carlos, o Rei. E a voz desse sujeito eu conheço, mas não lembro de onde. Quando a música termina – eu já completamente chapado com a beleza e a força confessional dela – o locutor esclarece: acabamos de ouvir ‘Meu pobre blues’, com Sergio Sampaio. Sergio Sampaio. Já sei: é aquele cara que ganhou um festival e enlouqueceu o Brasil com “Eu quero é botar meu bloco na rua”. Mas por que essa música? Por que esse fascínio, essa necessidade de chegar ao Rei? Parado no semáforo, relembrando mentalmente a melodia e trechos da letra, não tenho dúvidas: se o Roberto gravasse, seria perfeito.
(clique aqui para ouvir "Meu Pobre Blues", com Sergio Sampaio)
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Em pouco tempo descubro que Sergio Sampaio nasceu na mesma cidade do Rei – Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo – e cresceu ouvindo as canções dele. E foi à luta. Trabalhou como locutor de uma rádio local, e na primeira chance se mandou para o Rio de Janeiro. Ainda voltou a Cachoeiro para o serviço militar – mas no final dos anos 1960 estava definitivamente no Rio. Mais por sintonia do que por ironia, o primeiro LP que ele gravou foi com um cara que, como ele, ganharia o rótulo de “maldito”, consumiria de tudo, descuidaria da saúde, morreria cedo demais, e ganharia muito mais fãs e reconhecimento após a morte do que em vida: o Raulzito, Raul Seixas. Pouca gente entendeu o aloprado e iconoclasta LP “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez”, de 1971. Mas todo mundo aplaudiu, no ano seguinte, quando Sampaio cravou um sucesso instantâneo no Festival Internacional da Canção com o samba “Eu quero é botar meu bloco na rua”. O que aconteceu daí em diante virou lenda. Uma tremenda injustiça: outro garoto de Cachoeiro, o súdito, fez carreira ao contrário: começou com um tremendo sucesso e, quanto mais e melhor produzia, mais era esquecido... Felizmente hoje, com boa ajuda da internet, a garotada que não viveu esses tempos está tendo a chance de redescobrir vida e obra do atormentado poeta e compositor popular.
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Ao longo dos mais de 30 anos que se passaram desde que eu descia a Angélica no fusquinha e ouvi pela primeira vez, “Meu Pobre Blues” ficou na minha cabeça como uma espécie de maldição dentro da maldição: a cada novo disco ou show do Rei, eu esperava que a música estivesse no repertório... e nada. Roberto , no ritmo dele, ia mudando, se distanciando cada vez mais daquele moleque abusado da Jovem Guarda... E se tornando cada vez mais previsível. Já, quanto a Sergio Sampaio – como costuma acontecer com os “malditos” – tudo foi se tornando nebuloso, mítico, sem limites definidos entre o que é real e o que é fantasia. Compôs muito, gravou pouco. Nunca consegui ter certeza se ele chegou a entregar pessoalmente um demo de “Meu Pobre Blues” ao Rei. Mas não era preciso: as rádios tocaram, alguns intérpretes gravaram... Roberto deve ter ouvido centenas de vezes. E, sujeito sensível que sempre foi, não deve ter ficado indiferente.
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Assim sendo, Roberto, acho que ainda há tempo e é muito fácil fazer justiça ao imortal Sergio Sampaio – teu grande fã. Ainda mais agora que estás tratando – e parece que curando – o tal TOC, transtorno obsessivo compulsivo. Para o bem geral da Nação, o eterno Rei da Jovem Guarda está abrindo a guarda, já mudou o penteado, está mais acessível e nem dá mais piti se aparece alguém de roupa marrom por perto... E só tem a ganhar se incluir “Meu Pobre Blues” no repertório de um próximo disco e um show. Pode ser que a legião de devotos de Sergio Sampaio, o “maldito”, é que não goste – afinal, dizem alguns, a letra do blues é muito mais irônica do que sincera... E o Rei, careta como é, se gravasse, poderia, digamos, “estragar” a memória de um maluco-beleza de verdade... Será?
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De novo, Roberto: ainda há tempo. Não marca bobeira, bicho! ”Meu pobre blues” é uma música viva, linda, atual. Ou escolhe outra. Praticamente tudo o que o Sergio Sampaio escreveu tem um pouco da tua cara – só que de um jeito mais doído: é verdade vivida, paixão em estado bruto, emoções fortes, com detalhes pequenos que fazem a diferença... Teu parceiro Erasmo sabe disso – tanto que já cantou “Feminino coração de Deus”, num disco dele mesmo e também no tributo Balaio do Sampaio. Garanto que vai te fazer bem, e vai fazer sucesso – porque as músicas são ótimas, e você é craque em tornar o ótimo popular. Não precisa dizer nada, não precisa destinar direitos à família do cara ou a uma ong de recuperação de alcoólatras ou drogados... Nada disso: é só cantar, com a tua classe, aquele bluezinho antigo. Não vai te custar nada... é tão simples... e ele queria tanto!
*Clique aqui para baixar o disco "Eu Quero Botar o Meu Bloco na Rua", de Sérgio Sampaio.
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