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20/04/2009
Rugido de inspiração

Por Marina Mantovanini

The Lions não obedece à profecia de que o reggae está ancorado, atualmente, na falta de criatividade. Eles querem reunir novos elementos e levar o som adiante. É com despretensão que a banda interpreta o estilo – fiel ao antigo jeito jamaicano de embalar o som. Embora seus integrantes vivam entre Los Angeles e Califórnia, o combo consegue absorver da Ilha os melhores elementos musicais e mescla a veia roots com o jazz e groove norte-americanos e o afrobeat da Nigéria e – como afirma o produtor, compositor, guitarrista e baixista Dan Ubick – com um toque sutil de MPB.

Em primeiro lugar, gostaria que você contasse um pouco sobre o projeto. Como começou e quem são as pessoas que fazem parte do The Lions?
O The Lions foi formado por um grupo de amigos que gostam de sair por aí e fazer música. Todos nós já tocamos juntos em algum outro grupo – no Breakestra, Rhythm Roots All Stars, Connie Price and the Keystones, entre outros –e estamos conectados pelo nosso amor à música jamaicana. Na primeira vez que gravamos, era apenas uma experiência para ver se conseguíamos alcançar uma música inspirada, que gostaríamos de ouvir por aí. Nós estávamos sentindo falta de algo novo no reggae e por isso decidimos fazer algo nós mesmos.

O disco conta com muitas participações. Essa é uma característica do grupo? Como vocês organizam isso nas apresentações ao vivo?
O grupo da turnê conta com os três backing vocals – Alex e Deston, do HEPCAT – e Malik, do Ocean 11, e o MC Black Shakespeare, que é sobrinho do Robbie Shakeaspeare (lenda do reggae jamaicano, uma das duas partes do Sly and Robbie.). Somado a eles, temos oito músicos que tocam órgão, piano, clarinete, bateria, percussão, guitarras, baixo e trompa, e o nosso engenheiro de som, especialista em dub, Steve Kaye, que também mixou nossos LP’s. No entanto, desde o primeiro LP, tentamos fazer algo como uma peça multi-cultural, com vários instrumentistas e cantores acompanhando as criações e trazendo coisas novas.

Como é o processo de criação das melodias e letras? Todos participam?
Todos os Lions são bons arranjadores e adicionam alguma particularidade única ao som. Realmente, não seria o The Lions se cada um de nós não participasse de tudo. Quanto às letras, eu sou o único real escritor do grupo, mas sempre alguém expõe novas ideias.

A sonoridade parece produzida nos anos 60. Como vocês chegaram nisso?
Nós fazemos o nosso som com o suingue do final dos anos 60 e começo dos anos 70. Para nós, foi a melhor era da história da música – tanto para a música jamaicana quanto para o rock, soul, jazz, música brasileira, africana, etc. As pessoas usavam órgãos Hammond, trompas, trumpetes – nada de sintetizadores tentando fazer o papel dos metais e guitarras através de amplificadores, era só funk e grittier gravado para a fita. Claro que não queremos apenas copiar o que já foi feito, imprimimos a nossa marca, que eu acho que vem um pouco das nossas perspectivas em relação ao hip hop. A era do rap trouxe de volta o groove, mais sujo; queremos fazer isso com o reggae, deixá-lo menos limpo, diferente do que tem sido feito nos últimos 20 anos.

Muitas pessoas acham que a música reggae está estagnada, que não há mais inovação. No entanto, muitas bandas têm aparecido, especialmente nos EUA, fazendo um blend, acrescentando pitacos de jazz, groove, afrobeat e funk à batida. Como vocês veem esse desenvolvimento?
Eu acho que o apreciador de musica está cansado de coisas criadas no computador. Nosso som ao vivo é exatamente igual ao do vinil. Nós incorporamos outros estilos para nos mover para frente, respeitando as pessoas que nos inspiraram. Estamos tentando criar algo real e funk que quando a pessoa escute, esqueça por um momento as coisas que ela não quer lembrar. Em relação ao que você disse sobre falta de inovação, acho que a maioria dos gêneros musicais tem passado por isso. Nas últimas décadas o que você pode dizer que é realmente inovador no rock? Radiohead, Queens Of The Stone Age, Nirvana... Todos esses grupos têm influências do passado, como todos os outros. Claro que muitas bandas de reggae soam igual as de antes, mas aí você olha alguém como o Damian Marley, que chegou para rejuvenescer o reggae. Esperamos que o The Lions tenha vindo para isso também. Nós queremos continuar a fazer LPs cheios de reggaes atemporais que faça as pessoas sentirem o mesmo que sentimos quando escutamos pela primeira vez, clássicos como "Satta", "Surfin'" ou "Stalag".

Vocês têm algum plano de gravar ou fazer shows com alguma lenda do reggae?
Nós acabamos de finalizar a gravação de duas faixas para o novo disco, que vai ser lançado ainda esse ano, e chamamos o Leroy Sibbles, dos Heptones, para cantar. Estamos em processo de gravação e há uma nova musica que será uma tonelada, espero que você escute falar muito dela. Vou manter em segredo, mas cruze os dedos por nós.

Vocês já receberam algum convite para tocar no Brasil? O que acham disso?
Eu adoraria ir ao Brasil e sei que o pessoal do Lions também. Se recebermos algum convite, nós iremos com certeza. Sou um grande fã de música brasileira: Mutantes, Jorge Ben, Caetano Veloso, Gal Costa, Azymuth, Arthur Verocai... Eu sempre digo que o Brasil e a Jamaica estão entre os países mais prolíficos musicalmente dos anos 60 e 70. Eu ainda escuto coisas que nunca ouvi de amigos que são DJs e trazem novidades dos dois lugares. Se nós tocássemos no Brasil, flutuaríamo em todos os shows.

Você acredita que a música hoje seria muito diferente, especialmente a eletrônica, se o reggae, rocksteady, ska e dub nunca tivessem existido?
Acho que se os soundsystens jamaicanos não tivessem nascido, a música moderna como ela é hoje, também não existiria. Foi o começo de tudo.

MP3, CD ou Vinil?
O som é muito melhor no vinil, 33 polegadas, e ainda melhor no 12 polegadas; nos dois o grave é pesado e o agudo, macio.

Trojan ou Studio One?
Maçãs e laranjas... Ambas são deliciosas e fazem bem.

Lee Perry ou King Tuby?
Jack Ruby ou Coxsone Dodd? Todos gênios, acima de qualquer coisa.










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