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10/02/2009
Motown, 50: Jackson 5, The Temptations, The Supremes

Por Gabriel Rocha Gaspar

"Jackie é o vocalista", determinou o pai, Joe, depois de muito custo. Desde que encontrara um violão escondido no porão do sobrado em que morava, em Gary, Indiana, passara a vigiar os filhos de perto. Ele próprio se aventurara pelas cordas (e estradas) ressonantes do blues e temia que os filhos embarcassem na onda musical. Um dia voltou mais cedo da siderúrgica em que trabalhava e colou o ouvido na porta, tentando flagrar um acorde ou outro.

Ouviu as belas vozes de Tito, Jackie e Jermaine harmonizando sucessos de Sam Cooke, Ray Charles e James Brown. Era soul, era hip, era novo, era diferente. Era grana no bolso, certeza. Sorriu, pensativo. Até que uma nota saiu do lugar e seu ouvido de músico flagrou a falha. Invadiu o porão de cinto em riste e proferiu um discurso que marcou a cabeça (e a pele) dos três moleques. "Se vocês vão fazer música, vão fazer bem feita. Nem que eu tenha que passar dez dias seguidos com vocês nesse porão". A brincadeira de criança virou trabalho profissional; as versões despretensiosas, música pra parada de sucesso.

A contragosto do rabugento Joe, os caçulas Michael e Marlon resolveram pegar na percussão e entrar na onda. O Jackson Family virou Jackson Five. E o Jackson Five voou alto: partiu dos clubes black de Gary para os clubes black de todo o estado; de Indiana para Chicago; de Chicago para as concorridíssimas audiências da Motown. O primeiro teste não foi grande coisa, os "capos" da gravadora sacaram potencial no menorzinho. E só. Joe ficou inconformado e resolveu tirar a ideia de que "Jackie é o vocalista" da cabeça. "O menorzinho é o vocalista", determinou. Pobre Michael. Debaixo de porrada, ele aguentou o fardo de toda a família. Cantou, apanhou, dançou, apanhou, deixou de dormir para ensaiar, apanhou, deixou de brincar para ensaiar, apanhou, liderou o grupo na derradeira audiência da Motown, com uma versão estrondosa de "I Got The Feellin", de James Brown (N.E.: veja o vídeo da audiência aqui), apanhou, conseguiu o contrato, apanhou, atingiu o primeiro lugar da Billboard, apanhou, partiu para carreira solo, apanhou, virou o maior ícone pop do planeta e passou a apanhar de si próprio e do mundo.

Mas, no fundo, entre todas as esquisitices que cercam a carreira e a vida dele, Michael Jackson sempre foi um menino extremamente talentoso; um gênio precoce que pagou com corpo e a alma o preço de sua genialidade. E não se deu conta disso. Mas as especulações acerca do excêntrico e possivelmente criminoso Michael são muito menos interessantes do que seu legado musical – este sim, bastante nutritivo.

Temptations: o ocaso do acaso
Edward era um moleque curioso. Não entendia – e nem se preocupava com – questões raciais, lei de segregação, pan-africanismo; nada disso. O barato dele era a curiosidade – curiosidade de saber o que saía do bebedouro dos brancos. Porque ele, pretinho do Alabama, só havia experimentado a água que vinha da bica denominada “Colored”. Por isso, quando ninguém estava olhando, ele dava uma bebericada na água branca. E achava muito mais gostosa. Gostava mesmo era da emoção de contrariar a regra.

Por isso também, de banco em banco, sentava-se na frente do ônibus – ala reservada para o bom protestante branco. Ele e seus amigos eram Rosa Parks de calções – anos antes de Rosa Parks se tornar um ícone do movimento pelos Direitos Civis. Mas não demorou para que Eddie James – como passou a se auto-denominar na adolescência – descobrisse algo muito mais emocionante do que a transgressão: a música. Ao lado de seu amigo Paul Williams – também delinquente juvenil pelas leis torpes do Alabama segregado –, o tenor Eddie roubou a cena no coral da igreja local. Viraram ídolos das meninas, ganharam olhares atravessados do velho pastor, que via muito doo-woop, bee-ba-dee-ba e oooooh nas interpretações que os moleques faziam da música santa.

Era hora de pular fora da Igreja, antes que a Bíblia virasse porrete. Resolveram se juntar a outros dois jovens canários – Kel Osbourne e Willie Waller – e cantar em um grupo pop. Logo, a pequena cidade de Birmingham ficou ainda menor para eles. Mudaram-se para Cleveland, Ohio, que não tardou a encolher frente à potência vocal dos quatro. Era hora de alçar voos mais altos. E qual era o voo mais alto que um músico negro poderia sonhar no início dos anos 60? Uma audiência com Berry Gordy na lendária Motown. E pra lá, sob o nome The Primes, os garotos rumaram, ao lado de seu grupo de apoio feminino, The Primettes.

Por azar (ou sorte), um outro grupo pintou na área no mesmo dia. Eram The Distants, um trio vocal da melhor qualidade. Os Primes não fizeram lá muito sucesso com Gordy, mas os Distants... Ah, os Distants foram contratados na hora. Mas, se Gordy não gostou, Otis, líder da mais nova banda da Motown, adorou os falsetes de Eddie. Correu atrás do negro caipira que saía cabisbaixo da casa / estúdio carregando o paletó surrado no ombro. “Ei, Eddie Kendricks!”, gritou, sem saber que colocara um “s” a mais no sobrenome. O outro se virou arisco, esperando um esculacho. Aqueles negros da cidade gostavam de tirar onda com a cara dos outros. “Quero que você complete nosso grupo”, cuspiu Otis Williams, de primeira. “Só se Paul puder ir junto”. Feito: nasceram os Temptations, o melhor quinteto vocal masculino da história – que ganharia o reforço do genial David Ruffin em 1964, mas essa é uma outra história.

“E as Primettes?”, você deve se perguntar. Eventualmente, as Primettes também conquistaram seu espaço na gravadora. Só trocaram seu nome para um mais impactante: The Supremes.

Supremes: história mal contada
Dias antes da cerimônia do Oscar de 2007, a Paramount e a Dreamworks publicaram um pedido de desculpas em duas páginas do Los Angeles Sentinel. O recado era endereçado a Berry Gordy e Smokey Robinson que, desde o lançamento de "Dreamgirls" vinham protestando contra o que diziam ser uma "inaceitável distorção na história da Motown". No anúncio, as produtoras diziam: '"Dreamgirls" é uma obra de ficção, além de ser uma homenagem à Motown. Usamos muitas das maravilhosas conquistas que pertencem à rica história da Motown. Por qualquer confusão que tenha resultado de nosso trabalho ficcional, pedimos desculpas ao sr. Gordy e todas as incríveis pessoas que fizeram parte deste grande legado. É fundamental que o público compreenda que a verdadeira história da Motown ainda está por ser contada". Berry aceitou publicamente as desculpas e ficou tudo bem. Tudo bem? Nada. O buraco é muito mais embaixo. Chegamos à história mais intrincada que a Motown viveu.

Talvez a história não tenha começado com Florence Ballard, como o filme dá a entender (a suposta gordinha que tinha mais voz do que Diana Ross) – mas a confusão, certamente sim. Smokey Robinson jura de pé junto que Ballard nunca foi líder das Supremes, posto reservado a Ross – com muita justiça, diga-se de passagem. Mas é fato que a voz mais forte e mais encorpada do grupo era mesmo de Florence Ballard. E é fato também que o primeiro single delas – ainda como Primettes – a obter algum destaque ("Buttered Popcorn") era liderado por Florence. Então, quando e como Florence Ballard foi relegada à posição de alcoólatra, encrenqueira e desertora?

O fato é que as Supremes são o case de negócio perfeito da Motown. Elas são exatamente o que Berry Gordy idealizou desde que entrou no mercado musical: um grupo negro que misturava consistentemente números musicais e coreografias e que agradava tanto a audiências negras quanto brancas. E a chave para a integração racial foi também a semente da cizânia dentro das Supremes. Enquanto a maledicência acusa Berry Gordy de ter privilegiado Diana Ross por causa de seu caso amoroso com ela, ele próprio tem uma explicação que parece mais plausível (considerando que ele é um empresário sagaz). "Diana tinha uma voz mais aveludada, menos identificada com o padrão de voz negro. Achei que ela teria mais apelo com o público branco". Verdade ou mentira, Berry Gordy acertou. Quanto ao critério ser a beleza, é contestável, já que Florence Ballard não era nem tão gorda nem tão feia quanto retratada no filme. E outra coisa interessante: Diana Ross, magra até para os padrões atuais, não se encaixava no consenso estético da época; as mulheres um pouco mais gordinhas faziam mais sucesso do que as magrelas.

Por outro lado, há um esforço por parte de Gordy e Robinson para mostrar que a história foi às mil maravilhas, quando não foi. Se fosse, Florence Ballard não teria morrido bêbada e pobre aos 32 anos, enquanto via suas ex-colegas despontarem para o estrelato mundial. Ela era sim uma cantora talentosa e ela não apenas liderou as Primettes, como foi fundadora do grupo. Foi ela quem chamou Diana Ross para participar do então quarteto vocal. E, por anos, elas foram amigas íntimas que dividiram as durezas da vida no gueto fabril de Detroit, de amores mal sucedidos e toda sorte de tristezas. Mas, desde que realizaram o sonho máximo de assinar com a Motown, Florence sentiu-se excluída e renegada.

Faltou a boa, velha e simples psicologia: fazer a moça entender que seu posto agora era fundamental, mas não mais principal. Ao invés disso, Berry Gordy e Smokey Robinson optaram por apagar o passado e fingir que o grupo sempre havia sido liderado por Diana Ross. Sem que Ross percebesse direito o que acontecia, Florence entrou em uma disputa meio doente com ela: passou a cantar mais alto com sua potente voz de tenor, fazendo a parceira desaparecer de palcos e gravações. Quem desapareceu de cena foi ela própria – foi demitida da Motown por Berry Gordy, casou-se com o motorista da empresa que, da noite pro dia, tornou-se também produtor e empresário. Caiu em depressão, definhou, morreu. Sobrou a "história que ainda está por ser contada". Por enquanto, só resta tentar adivinhar.

*Esses textos foram publicados originalmente no blog http://www.afroencias.blogspot.com/










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