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Por Filipe Luna e Ramiro Zwetsch Fotos: José Gabriel Lindoso
É simples: a Nação Zumbi é a melhor banda do mundo na atualidade. E ponto final. Os tambores de maracatu são o primeiro e mais imediato diferencial. Parece que o grave ganha elasticidade e a pulsação empurra a sonoridade em colisões entre funk, rock, rap, dub, jungle e ritmos brasileiros. O batuque ainda ganha mais poder de fogo com congas, chocalhos e o que mais vier. Depois bate no ouvido a guitarra. Mutante, assume influências de Jimi Hendrix ("Macô"), dispara em grooves insólitos ("Carimbó"), saca rifs de heavy metal ("Meu Maracatu Pesa uma Tonelada") ou fica no suingue da mão direita ("O Cidadão do Mundo").
Bateria e baixo disparam cada um para um lado mas sempre se encontram em esquinas improváveis. O dub parece conduzir as quatro cordas ("Manguetown", "Know How") e as baquetas traçam curvas rítmicas quebradas e precisas ("Samba do Lado", "Amnésia Express"). Uma moldura instrumental coberta por um verniz eletrônico para realçar as texturas. Entra o vocal e a confusão aumenta: canta a psicodelia ("Blunt of Judah") e emoções ("Prato de Flores") em letras inspiradas e melodias improváveis. E ainda há algo de punk rock no ar. Um aroma de Serge Gaisnbourg bate vez ou outra. Se farejar, encontra resquícios de Fela Kuti e referências a Nelson Cavaquinho. É embaçado.
Obviamente, o mundo está cheio de boas bandas de rap e de rock. Mas nenhuma delas é proprietária de uma sonoridade autêntica e inclassificável: fazem rap ou fazem rock. Talvez o único grupo com cacife para competir com os pernambucanos, dentro dessa lógica, seja o Asian Dub Foundation -- também detentor de um estilo próprio, imune a rótulos e agregador de vários outros gêneros. Mas como é coisa nossa, a Nação Zumbi leva vantagem no critério de desempate. Como já disseram, ela "é todas bandas em uma só". É isso aí: a mistura funciona, não tem engarrafamento de referências. Da sucção de um mar inteiro de boas influências, surge algo autoral, original, sem precedentes. Daí pode até causar a impressão de que a química está associada a um entrosamento de estúdio e não chega com o mesmo impacto no palco. Errado: ao vivo, a banda cresce e os efeitos ganham eco. Sem exagero, fica tudo melhor. A Nação Zumbi fica possuída no palco. Conversa fiada? Então dá uma sacada no DVD "Propagando", o primeiro da banda.
O sumiço do mestre-cuca A história da banda se divide em dois momentos bem distintos. Até fevereiro de 1997, vinha numa curva ascendente de popularidade e era a maior representante do movimento musical que tirou o foco da produção cultural do eixo Rio – São Paulo, o Manguebeat – criação conjunta de Chico Science, Fred 04 (Mundo Livre S/A) e outros auto-intitulados caranguejos com cérebro. Carismático, Chico tinha força de agregação e movimentação que conseguiu modificar o panorama cultural de uma cidade. Não foi o único responsável pela emergência desses novos valores, mas quem os melhor sintetizou.
Sua obra e morte precoce o transformaram em ícone no imaginário da juventude pernambucana. A Nação Zumbi estava orfã de seu homem de frente quando apareceu o incentivo de Max Cavalera, que convidou a banda para acompanhá-lo em show no Abril Pro Rock de 1997. Ali começou uma nova história, de um grupo que já não era o mesmo. Os ingredientes permaneciam, mas a receita ganhou reforço no tempero. Sim: de certa forma, a cozinha aprimorou o cardápio apesar do sumiço de seu mestre-cuca. Jorge Du Peixe (até então, um dos percussionistas da banda) assumiu letras e vocais principais e provocou uma guinada no enfoque da banda. Saíram os versos panfletários e entraram as metáforas contemplativas. Em comum: ambos transitam com igual eficiência tanto pelas melodias como por vocais cantados em forma de rap e oferecem um timbre incrivelmente parecido.
Um repertório farto O primeiro DVD da banda vem para evocar uma parte importante dessa história e consolidar seu atual momento criativo. Gravado em São Paulo, em dezembro de 2003, durante a turnê de "Nação Zumbi", disco mais recente da banda, abrange em seu repertório faixas de quatro dos cinco álbuns de sua discografia. Sucessos mais manjados como "A Cidade", "Praiera" e "Maracatu Atômico" -- que ganharam os primeiros clipes do grupo -- estão fora.
A banda dispara três petardos de diferentes fases de sua carreira no início da apresentação. Abrem com a evocação do sertão de "Mormaço" (do último disco, "Nação Zumbi"), o tropicalismo de "Samba do Lado" ("Afrociberdelia") e a favorita das rodas de pogo, "Quando a Maré Encher" ("Rádio S.amb.a"). A primeira e única participação vem em "Propaganda" ("Nação Zumbi") com o vocalista do Mamelo Sound System, Rodrigo Audriolando.
Na seqüência que encerra a primeira metade do show, Jorge Du Peixe saca algumas de suas melhores letras na trinca que reúne "Blunt of Judah" ("Nação Zumbi"), "Carimbó" ("Rádio S.amb.a") e "Know Now" ("Nação Zumbi"). O microfone então passeia por outras mãos: Toca Ogam, sempre inspirado, ensaia passos de ritmos tradicionais como o coco e o caboclinho, em "Remédios" ("Da Lama ao Caos"), e Gilmar Bola 8 rima e canta no pulsante pout-pourri de "Zumbi/Zulu" ("Rádio S.amb.a"), "Banditismo por uma Questão de Classe" ("Da Lama ao Caos") e "Um Satélite na Cabeça" ("Afrociberdelia").
A primeira versão da noite vem com "Purple Haze", de Jimi Hendrix, fiel à gravação original e reforçada pelos poderosos graves das alfaias dos tambores. Os covers são mais comuns nos diversos projetos paralelos dos músicos da banda (Los Sebozos Postizos, Pra Mateuz Poder Dançar, Os Malteses) mas começaram a aparecer com mais freqüência nos shows mais recentes da Nação. "Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada" ("Nação Zumbi") e os clássicos "Cidadão do Mundo" e "Manguetown" (ambas do "Afrociberdelia") encerram a apresentação com a adrenalina no último nível e deixam a platéia ansiosa pelo bis. Ele chega e coloca a casa abaixo com o pout-pourri de "Da Lama ao Caos" (do disco homônimo) e "Umbabarauma", do Jorge Ben.
Aperitivos bem servidos Foram usadas 12 câmeras para registrar a apresentação e tanto a edição como o cenários preservam o conceito visual dos encartes dos discos da banda. A qualidade sonora é impecável. A apresentação foi gravada em 40 canais e o DVD apresenta as opções em estéreo e surround 5.1.
Os extras também dão água na boca. O documentário que acompanha a banda durante a última turnê, com ênfase especial na parte européia, invade camarins e desvenda curiosidades. Flagra momentos de tensão quando instrumentos são extraviados em um dos aeroportos horas antes de um show. Os percussionistas, que carregam no batuque a referência mais explícita aos ritmos tradicionais, relatam as mudanças ocorridas no bairro periférico de Peixinhos depois da recuperação desses elementos no imaginário popular. Também são servidos um making of do show, videoclipes e uma idéia interessante intitulada como "Guitacammacô". Com uma microcâmera instalada na guitarra de Lúcio Maia, o espectador acompanha de perto o movimento das mãos do músico durante a execução de "Macô".
O DVD registra um período fundamental da banda mais influente da atual cena musical brasileira, confirma sua capacidade criativa e perpetua a evolução sonora presente em sua obra.
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